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Tumores do Testículo

Rui Ricardo da Silva Formoso – Interno de Urologia – Centro Hospitalar Lisboa Norte


Definição

Os testículos estão localizados no escroto que é uma bolsa situada abaixo do pénis, e estão suspensos do abdómen pelos cordões espermáticos. Produzem células reprodutoras (espermatozóides) e hormonas sexuais masculinas.

Os testículos são constituídos essencialmente por túbulos seminíferos onde se desenvolvem os espermatozóides. Os túbulos são revestidos por células de Sertoli, que protegem e nutrem os espermatozóides em desenvolvimento. As células de Leydig estão localizadas entre os túbulos seminíferos e secretam testosterona e androsterona que estimulam os desenvolvimento dos órgãos sexuais masculinos e caracteres sexuais secundários (por exemplo crescimento da barba, massa muscular, alteração da voz).

Um tumor do testículo é causado por células que se dividem descontroladamente. Estas células podem migrar para outras zonas do corpo através da corrente sanguínea ou pela linfa. A esta disseminação se dá o nome de metásteses, e assim podem se originar metáteses nos gânglios linfáticos (por ex. no abdómen) ou noutros órgãos (por ex. pulmões).

Apesar de serem os tumores mais frequentes dos homens entre os 15 e 34 anos, são raros comparados com outros tipos de cancro. Os tumores do testículo representam cerca de 2% dos cancros no homem, e é o cancro mais curável com mais de 95% de taxa de cura após tratamento.
 

Tipos

A maioria dos tumores do testículo (95%) origina-se em células imaturas (células germinativas) que dão origem aos espermatozóides, sendo assim os tumores de células germinativas (TCG). Há dois tipos: Seminomas e Não-seminomas. Um terceiro tipo, os tumores do estroma, originam-se nos tecidos de suporte do testículo.

Cerca de 40% dos TCG são Seminomas, que podem ser típicos (a maioria) ou espermatocíticos (a minoria). Os primeiros ocorrem geralmente num só testículo causando aumento de volume ou então uma massa indolor no testículo. Os segundos crescem lentamente, não metastizam e ocorrem por volta dos 65 anos.

Sessenta por centos dos TCG são Não-seminomas e desenvolvem-se em homens mais jovens (entre os 15 e 35). A maioria contém células de pelo menos 2 subtipos: coriocarcinoma, carcinoma embrionário, teratoma ou carcinoma do saco vitelino.

Mais raros são os tumores dos tecidos de suporte nomeadamente os tumores de células de Sertoli e os tumores de células de Leydig.

Factores de risco e causas

As causas dos tumores de testículos ainda permanecem desconhecidas. Os homens com maior risco são os que nascem com um testículo não-descido (criptorquidia), ou seja que permanece no abdómen em vez de descer para o escroto. Rapazes com esta alteração têm um risco aumentado de desenvolver um cancro do testículo se não tratados até aos 11 anos. Outros factores de risco incluem: idade jovem, raça caucasiana, antecedentes familiares, problemas de fertilidade. Uma vasectomia ou traumatismo testicular não originam tumores do testículo.
 

Sinais e sintomas

Os tumores do testículo nem sempre produzem sintomas. O sinal mais comum é o aumento de volume testicular ou a presença de uma massa palpável e geralmente indolor num ou nos dois testículos. Outros sintomas incluem a sensação de peso, moinha ou desconforto no escroto, região inguinal ou abdómen, sensação de mal-estar e cansaço.

Alguns tipos de tumores (por ex. coriocarcinoma, tumor de células de Leydig, tumor de células de Sertoli) produzem altos níveis de hormonas como a B-HCG, estrogénios, testosterona, que podem causar respectivamente aumento da sensibilidade mamária e aumento da glândula mamária chamado ginecomastia, perda de desejo sexual (libido), e aparecimento precoce de pelos no corpo e na face e interrupção do crescimento nos rapazes.

Os tumores do testículo metastizados podem originar dores ósseas, sensação de falta de ar (dispneia), dores torácicas, e tosse.

Estes sintomas não significam que se tenha um tumor do testículo mas se estiver preocupado deve consultar o seu médico.
 

Diagnóstico

A maioria dos tumores testiculares é descoberta ou pelo próprio doente (por acaso ou aquando de um auto-exame para pesquisar massas) ou então pelo médico aquando do exame objectivo duma consulta.

O diagnóstico implica uma história clínica para apurar factores de risco, desenvolvimento das queixas etc., o exame objectivo para avaliar o escroto e eventuais gânglios linfáticos e exames complementares de diagnóstico, nomeadamente ecografia escrotal e análises sanguíneas (com determinação de AFP, B-HCG e LDH).

A única hipótese de se obter um diagnóstico definitivo de um tumor do testículo é através de uma biopsia, que no caso testículo consiste na remoção do testículo afectado (orquidectomia radical), ao contrário de outros órgãos em que é removida uma amostra de tecido. Em casos seleccionados poderá ser feita uma verdadeira biopsia, mas deverá ser discutido previamente dados os riscos implicados. A remoção de um testículo não afecta a fertilidade assim como a potência sexual (na premissa que o outro seja saudável) e em muitos casos será o tratamento definitivo do tumor do testículo.

A extensão da doença no organismo, ou seja o estadiamento, é determinada pela realização de outros exames complementares de diagnóstico nomeadamente Rx de Tórax, T.A.C. de abdómen e quando necessário T.A.C torácico ou mesmo Ressonância Magnética Nuclear (R.M.N.)

Assim a doença pode-se encontrar nos seguintes estádios:

• Estádio 1 – o cancro encontra-se limitado ao testículo.
• Estádio 2 – o cancro estendeu-se aos gânglios linfáticos no abdómen
• Estádio 3 - o cancro estendeu-se aos gânglios linfáticos no tórax
• Estádio 4 - o cancro estendeu-se aos outros órgãos
 

Tratamento

As opções de tratamento dependem de vários factores, incluindo o tipo de tumor e seu estádio, o estado geral do doente e a vontade do mesmo. A cirurgia pode ser combinada com a radioterapia ou com quimioterapia.
 

Cirurgia

A cirurgia de remoção do testículo (orquidectomia radical) constitui o tratamento primário e por vezes único para praticamente todos os tipos e estádios de tumor do testículo. Para isso, o cirurgião realiza sob anestesia, através de uma incisão na virilha (região inguinal) a remoção do testículo e do cordão espermático. Poderá ser colocado ou não uma prótese testicular no mesmo procedimento.

Caso haja disseminação do cancro para os gânglios linfáticos poderá ser realizada (no mesmo tempo operatório ou então noutro posterior) uma cirurgia de remoção dos mesmos (linfadenectomia retroperitoneal) através de uma grande incisão no abdómen. Esta cirurgia apresenta entre outras complicações (apesar de todos os cuidados tomados pela equipa cirúrgica), a dificuldade em ejacular (ejaculação retrógrada) mas que não afecta a potência sexual.

Após a cirurgia o doente é seguido em consulta, sendo visto a cada 3-4 meses durante os primeiros anos e depois anualmente. Nesta altura realiza exames complementares de diagnóstico (análises sanguíneas, TAC, e outros) para determinar a cura ou recidiva da doença. Consoante a evolução o médico poderá sugerir tratamentos adicionais.
 

Radioterapia

A radioterapia usa raios X de alta energia para destruir células cancerosas. No caso dos seminomas é administrado radioterapia após a orquidectomia radical (terapia adjuvante) para destruir células que tenham metastizado para os gânglios linfáticos. A radioterapia também é utilizada nalguns doentes que tenham tumores testiculares do tipo não-seminoma, contudo a dose de radiação fornecida é mais baixa na primeira. Efeitos secundários da radioterapia incluem náuseas, diarreia, fadiga, irritação da pele da zona aplicada e infertilidade. Contudo algumas medidas preventivas podem minorar ou mesmo evitar esta complicação.

Quimioterapia

A quimioterapia usa fármacos para destruir células cancerígenas que tenham metastizado, podendo ser administrada antes da cirurgia (quimioterapia neo-adjuvante) para fazer encolher uma massa tumoral, ou após (quimioterapia adjuvante) para destruir células que tenham permanecido depois da cirurgia. Estes fármacos podem ser administrados por via endovenosa (num soro), por via oral (comprimidos) ou injectado no músculo.

Podem ser usados isoladamente, mas geralmente em combinação. Exemplos de fármacos: Cisplatino, Etoposido, Bleomicina, Ifosfamida, Paclitaxel, e Vinblastina.

Os efeitos secundários dependem de cada fármaco usado, mas em geral incluem fadiga, náuseas, queda de cabelo, infertilidade e risco aumentado para contrair infecções. Contudo são empregues outros medicamentos e medidas para minorar estes efeitos secundários.
 

Prognóstico

O prognóstico depende do estádio da doença na altura do diagnóstico, porem mais de 95% dos casos são tratados com sucesso.

 

Publicado em Abril 2010