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Litíase Urinária – Prevenção e Tratamento

João Miguel Jesuíno Ramalho Ramos – Urologista – Serviço de Urologia do Hospital Espírito Santo de Évora


Introdução

A litíase urinária, também designada por urolitíase é uma doença que se deve à formação de cálculos, vulgarmente denominados “pedras”, no aparelho urinário. Os cálculos urinários são estruturas sólidas que resultam da aglomeração de cristais. Estes, por sua vez, formam-se devido a uma alteração metabólica (bioquímica) crónica do organismo que determina uma aumento da excreção urinária de substâncias promotoras da formação de cálculos, como o cálcio, o ácido úrico, o oxalato e o fosfato e/ou uma diminuição da excreção de substâncias inibidores da cristalização (por exemplo o citrato e magnésio).

As alterações metabólicas mais frequentes que podem criar condições para a formação de cálculos são o aumento da excreção urinária de cálcio (hipercalciúria), ácido úrico (hiperuricosúria) e oxalato (hiperoxalúria), bem como a diminuição da excreção urinária de citrato (hipocitratúria) e, menos frequentemente, de magnésio (hipomagnesiúria).

A composição química dos cristais determina o tipo de cálculo formado. Deste modo, existem vários tipos de cálculos, nomeadamente: os cálculos de oxalato de cálcio (60%), de oxalato de cálcio associado a fosfato de cálcio (20%), ácido úrico (8%), estruvite (8%), fosfato de cálcio (2%) e cistina e outros componentes (2%).

A permanência de cálculos no aparelho urinário pode não causar qualquer sintoma ou desencadear sintomas muito intensos, nomeadamente a cólica renal e complicações clínicas graves, que podem terminar em insuficiência renal crónica.

Aproximadamente uma em cada 100 pessoas desenvolve cálculos urinários ao longo da vida. Cerca de 80% destas pessoas eliminam a pedra espontaneamente, juntamente com a urina. Os 20% restantes necessitam de alguma forma de tratamento.
 

O tratamento da litíase urinária

O tratamento da litíase urinária é efectuado em três fases. Inicialmente é necessário o tratamento urgente para alívio da dor (cólica renal). Posteriormente é efectuado o tratamento da litíase propriamente dita, com remoção do(s) cálculo(s). O quadro clínico, os tratamentos medicamentosos para alívio da cólica renal, bem como as técnicas cirúrgicas para fragmentação e/ou remoção do cálculo, são objecto de análise noutro texto publicado pela APU. A última fase consiste no tratamento profiláctico ou preventivo da formação de novos cálculos, que deve ser feito para o resto da vida.
 

A importância da prevenção e tratamento médico da litíase urinária

Como a formação dos cálculos urinários se deve a uma disfunção metabólica crónica, uma vez formado um primeiro cálculo, a pessoa estará sempre susceptível à formação de novos cálculos (mesmo que o primeiro seja removido).

Estima-se que cerca de 50% dos doentes não tratados, a quem foi diagnosticado um cálculo urinário, irá desenvolver um novo cálculo nos próximos 5 a 10 anos. Daí a grande importância de medidas de prevenção e tratamento médico, com as quais é possível reduzir, em mais de 80% dos doentes, o crescimento de cálculos já existentes, e a formação de novos cálculos.
 

Prevenção e tratamento médico da litíase urinária

A prevenção da formação de novos cálculos engloba medidas gerais recomendadas a todos os doentes com litíase e o tratamento medicamentoso específico para um doente a quem foi detectada uma alteração metabólica responsável pela formação de um determinado tipo de cálculo urinário.

Após o primeiro diagnóstico de litíase urinária, e antes de tomar qualquer medida preventiva, o doente deve consultar o médico urologista. Em consulta, é efectuada uma avaliação clínica para determinar qual o tipo de cálculo formado e a alteração metabólica em causa. De acordo com os dados obtidos são requisitas um conjunto de exames, ao sangue e à urina que, no seu conjunto, se designam por avaliação ou estudo metabólico. É possível fazer um diagnóstico específico da alteração metabólica em 97% dos casos.

A constituição química do cálculo só pode ser diagnosticada definitivamente mediante a análise bioquímica do cálculo urinário, pelo que se o cálculo foi removido será enviado para análise. Se não foi removido, o doente deverá ser instruído sobre das técnicas para recuperação do cálculo que eventualmente eliminará. Por exemplo, urinar para um passador ou para um filtro de papel. Quando for recuperado, o cálculo de ser guardado num frasco a seco (não em água, álcool ou qualquer outro líquido).

Concluída esta avaliação clínica o urologista está em condições de indicar se apenas medidas gerais são suficientes ou se é necessário associar o tratamento específico, para prevenção da formação de novos cálculos.

A. Medidas gerais para a prevenção da litíase urinária

As medidas gerais de prevenção da litíase consistem no aumento da ingestão de líquidos e alterações gerais na alimentação.

I. Aumento da ingestão de líquidos

Os doentes devem beber cerca de 2 litros de líquidos por dia (3 litros em dias de maior calor) para tornar a urina menos concentrada e dificultar a formação de novos cálculos. Todavia, não é qualquer tipo de líquido que pode ser ingerido. Água, sumo de laranja, limão e maça são recomendados. Chá preto, café e refrigerantes à base de cola devem ser evitados. É a medida mais importante pois na ausência de qualquer outro tratamento pode diminuir a formação de litíase em cerca de 60 % dos doentes.

II. Alterações gerais na alimentação para prevenção da litíase

As recomendações que se seguem podem ser feitas pelo médico urologista a todos os doentes com litíase urinária sem necessidade de apoio de um nutricionista.

• Deve ingerir leite e derivados (alimentos ricos em cálcio) em quantidades moderadas, geralmente duas vezes ao dia. No entanto, não se recomenda a restrição total de alimentos ricos em do cálcio na dieta. Exemplo: leite ao pequeno-almoço e um iogurte ou um pedaço de queijo com pão ao lanche.
• Devem ingerir carnes (que deve ser magras) em quantidades moderadas, para reduzir a ingestão de proteínas.
• Diminua a quantidade de sal na preparação dos alimentos e evite alimentos salgados como presunto, mortadela ou salsicha.
• Prefira o pão integral e de centeio aos pães brancos fermentados.
• Coma gordura moderadamente e substitua o açúcar por adoçante.
• As leguminosas como feijão e lentilha, não devem ser consumidas mais do que uma vez por dia.

Recomenda-se ainda a ingestão regular dos seguintes alimentos devido ao alto teor de substâncias inibidoras da formação de todos os tipos de cálculo: arroz, batatas (excepto batata doce), clara de ovo, margarina, óleos vegetais, mel, maionese, bolachas de água e sal, frutas como abacaxi, uva, melancia, pêra e cereja.

Por outro lado, os alimentos indicados na tabela anexa devem ser evitados ou consumidos em quantidades moderadas por todos os doentes com litíase urinária.

B. Tratamento específico para os diferentes tipos de cálculos

Engloba alterações na dieta de modo a restringir ou eliminar alimentos ricos em substâncias que estão implicadas na formação de um determinado tipo de cálculo num doente específico. Estas recomendações deverão ser efectuadas com o apoio de um nutricionista. Quando as alterações na dieta falham, na prevenção da está indicada, em alguns doentes a utilização de medicamentos específicos.

I. Prevenção dos cálculos que contêm cálcio

Como os cálculos de cálcio representam 80% de todos os cálculos urinários, as alterações gerais na dieta anteriormante referidas são geralmente suficientes para a prevenção da sua formação. Quando as medidas anteriores não são suficientes, medicamentos diuréticos (tiazidas) e citrato de potássio oral (Uralit U®) são prescritos.

II. Prevenção da formação de cálculos de oxalato de cálcio

Para além das medidas para a prevenção dos cálculos de cálcio em geral, devem ser evitados os alimentos ricos em oxalato, tais como: batata-doce, beterraba, espinafre, chocolate, café, chá, refrigerantes à base de cola e frutos secos (sobretudo nozes).

III. Prevenção da formação de cálculos de ácido úrico

A prevenção da formação de cálculos de ácido úrico implica a normalização da excreção desta substância na urina. Isto é conseguido através de uma diminuição da ingestão de carnes gordas (porco e pato) e jovens (frango, vitela, cabrito, leitão), órgãos e vísceras (miolos, fígado, coração, rins), peixes gordos (atum, sardinha, salmonete, cavala, anchova), conservas, mariscos, queijos e bebidas alcoólicas (cerveja) (2). Se estas medidas dietéticas se revelam insuficientes, poderá estar indicada a administração do medicamento alopurinol.

IV. Prevenção da formação de cálculos de estruvite

Os cálculos de estruvite, ou cálculos infecciosos, são causados por infecções urinárias de repetição do aparelho urinário por determinado tipo de bactérias.

Além da eliminação completa dos cálculos, a prevenção de infecções urinárias de repetição poderá implicar a utilização prolongada de antibióticos específicos para o referido tipo de bactérias, para manutenção de urina estéril. Em casos particulares, poderá utilizar-se ácido acetohidroxâmico (8).

V. Prevenção da formação de cálculos de cistina

Para a prevenção destes cálculos recomenda-se a terapêutica com citrato de potássio oral e captopril (9,10).
 

Conclusão

A litíase urinária é uma doença crónica com tendência para a recorrência.

A avaliação clínica adequada permite na grande maioria dos casos um diagnóstico da causa da litíase e a orientação para o tratamento medicamentoso que, associado ao reforço hídrico e alterações da dieta, permitem evitar ou reduzir significativamente a formação de cálculos em mais de 80% dos doentes. No entanto, a prevenção desta doença exige um compromisso na realização dos tratamentos prescritos, dado que a prevenção de novos cálculos deve ser feita para resto da vida.
 

Anexo

Tabela com alimentos que devem ser evitados ou consumidos em quantidades moderadas em todos os doentes com litíase urinária.

 

Frutas

Figo, ameixa, castanha, toranja, passa, amora, damasco e tâmara.

Verduras e Legumes

Beterraba, couve, brócolos, espinafre, nabo, pepino, salsa e agrião, tomate, alho-porro, beringela, abóbora.

Carnes, Peixes e Marisco

Anchova, arenque, carnes de vaca de aves e de caça, carne e peixe em conserva, carnes gordas, cavala, crustáceos (lagosta, camarão, caranguejo), sardinha, mexilhão, ovas, vitela, moela, perdiz e vísceras (fígado, coração, rins).

Grãos e Leguminosas

Amendoim, castanhas, nozes, tremoço, soja, lentilha e feijão.

Doces e Sobremesas

Cacau e chocolates, gelatina, pão doce e outros produtos fermentados de padaria, gelados.

Conservas e enlatados

Outros Alimentos

Bebidas alcoólicas, café, chá preto, chocolate, groselha, gema de ovo, pimenta.

 Publicado em Janeiro 2010