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Infertilidade Masculina

Luís Carlos Monteiro Pereira Costa – Interno de Urologia – Centro Hospitalar de Vila Nova de Gaia


Calcula-se que a probabilidade de um casal dito normal alcançar uma gravidez é de cerca de 20% por mês, com uma probabilidade cumulativa de 90% ao fim de um ano.

A infertilidade é assim definida como a incapacidade de um casal em obter uma gravidez após um ano de relações sexuais desprotegidas.

Calcula-se que a infertilidade atinge actualmente cerca de 15% dos casais e que este número sofrerá um aumento progressivo, fruto da idade crescente em que se decide ter o primeiro filho. Existe actualmente um desfasamento entre o pico da capacidade reprodutora, que ronda os 24 anos, quer no homem, quer na mulher, e a idade em que se decide procriar. Este desfasamento decorre do hábito, cada vez mais frequente na nossa sociedade, de se protelar a primeira gravidez até que estejam reunidas determinadas condições, sejam no campo económico, sejam no campo académico ou profissional.

Este progressivo envelhecimento dos casais tem repercussões quer na taxa de gravidez natural, quer nos resultados das técnicas de reprodução medicamente assistida. Isto levou a que actualmente, em casais de idade mais avançada (tipicamente quando a mulher tem mais de 35 anos) se recomende iniciar o estudo da infertilidade de maneira precoce, em vez de esperar pelos 12 meses inerentes à própria definição.

O factor masculino é responsável por cerca de 20% dos casos de infertilidade e contribui em cerca de 20 a 40% de casos adicionais

Podemos deste modo considerar, de grosso modo, que o factor masculino está presente em cerca de 50 a 60% dos casais inférteis.
 

Avaliação inicial do homem infértil

A avaliação inicia-se pela história clínica, que deverá documentar a duração da infertilidade, antecedentes pessoais relevantes (por exemplo antecedentes de quimioterapia ou de cirurgias testiculares, entre muitos outros) e uma breve história sobre os hábitos sexuais do casal, uso de contraceptivos e avaliação da função eréctil e ejaculatória. Devem ser igualmente pesquisados comportamentos nocivos, como o tabagismo, o alcoolismo, o consumo de drogas de abuso ou de certos medicamentos (ex. cimetidina, sulfazalasina, entre outros). A frequência de saunas ou de banhos quentes está tradicionalmente associada à diminuição da capacidade fértil (embora a associação não seja universalmente aceite).

Por fim, nos antecedentes familiares são importantes a existência de outros casos de infertilidade e de doenças presentes em várias gerações.

O passo seguinte é o exame físico, em que são avaliadas as proporções corporais e os sinais sexuais secundários, como a pilosidade e sua distribuição, a distribuição da gordura corporal e a presença de ginecomastia (aumento mamário). O exame físico centra-se por fim nos genitais externos, onde são avaliados o pénis e os testículos e são pesquisadas anomalias como o hipospádias (anomalia na localização do meato uretral), ausência de ductos deferentes ou presença de varicocelos (dilatação varicosa das veias testiculares).
 

Exames auxiliares de diagnóstico

O primeiro exame é o espermograma. Consiste na avaliação física, química e microscópica do esperma e dos seus constituintes. Um homem com exame físico e espermograma normais dispensa estudos andrológicos adicionais.

Caso esteja alterado deve ser repetido e associado a outros estudos, como a avaliação hormonal, ecografias e testes genéticos, em função do quadro sugerido pela história e exame físico.

Em determinadas situações pode ser necessária a realização duma biopsia testicular, exame habitualmente realizado em regime de ambulatório com anestesia local.
 

Tratamento e orientação

Por fim, após todo este estudo o médico determina um diagnóstico, em função do qual vai delinear um tratamento.

Este poderá passar pela suspensão de determinado medicamento, pela mudança de hábitos, pela reposição hormonal, pela resolução duma obstrução testicular ou pela correcção cirúrgica dum varicocelo, entre outros.

Em até 40% dos homens que apresentam alterações dos parâmetros espermáticos não existe qualquer causa subjacente detectável.
Nestes casos opta-se pela terapêutica médica empírica, seguida, em caso de falência, pelo recurso a técnicas de reprodução medicamente assistida (inseminação intrauterina ou fertilização in vitro).

Casos mais graves (por vezes associados a alterações genéticas ou a falência testicular grave) são habitualmente encaminhados para técnicas de reprodução medicamente assistida. Em muitos destes homens a presença de espermatozóides no ejaculado é de tal maneira escassa que é necessária a sua extracção cirúrgica, através duma biopsia testicular.

Por fim, em determinados casos a alteração espermática é de tal maneira grave que o homem é considerado estéril, não havendo qualquer hipótese de procriação, mesmo que medicamente assistida. Nestes casos, o único recurso é a fertilização da mulher com esperma de dador anónimo ou a adopção.

Publicado em Abril 2010