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HBP – Hiperplasia Benigna da Próstata

João Fernando Alturas da Silva e Francisco Botelho – Urologistas – Serviço de Urologia do Hospital S. João – Porto


A próstata é uma glândula do tamanho de uma castanha e que faz parte do aparelho reprodutor masculino. Ela está localizada à frente do recto, abaixo da bexiga e envolve a uretra.

A Hiperplasia Benigna da Próstata (HBP) é um diagnóstico histológico que corresponde ao aumento da zona da próstata que envolve a uretra (zona de transição) devido a hiperplasia das células epiteliais e do tecido conjuntivo. A incidência de HBP aumenta com a idade, afectando de forma sintomática aproximadamente 25% dos homens com idade superior a 40 anos e um em cada 3 homens com mais de 65 anos.

Uma vez que a próstata rodeia a uretra masculina, um aumento do seu tamanho pode causar obstrução do esvaziamento vesical que por sua vez origina sintomas relacionados com a obstrução da uretra e com alterações funcionais da bexiga. Os sintomas provocados pela HBP são o aumento da frequência urinária, quer durante o dia (polaquiúria), quer durante a noite (noctúria), a vontade súbita e inadiável de urinar (imperiosidade), a incontinência, o gotejamento no final da micção, a dificuldade em iniciar a micção (hesitação) e a necessidade de esforço abdominal para urinar. Estes sintomas, geralmente designados pelo acrónimo inglês de LUTS (Lower Urinary Tract Symptoms) condicionam a actividade diária e o padrão de sono, alterando drasticamente a qualidade de vida destes doentes.

No entanto, não existe uma boa correlação entre os LUTS e o tamanho da próstata. Alguns homens com próstatas grandes (superiores a 100g) podem ter poucos sintomas que não interferem com a sua qualidade de vida e outros homens, com próstatas mais pequenas (30-40g) podem ter obstrução urinária que condiciona alterações graves na sintomatologia urinária. Estes sintomas também podem ser originados por outras patologias, independentes ou associadas à HBP.

Se não for devidamente acompanhada a HBP pode causar problemas graves no futuro: retenção urinária (incapacidade de urinar), infecções urinárias, litiase vesical (acumulação de pedras na bexiga), lesões na bexiga, lesões nos rins e incontinência urinária. Felizmente hoje já existem tratamentos eficazes para evitar estas situações.

O objectivo do tratamento não é curar a HBP, mas reduzir os sintomas e evitar as complicações da doença. Deve ser ainda salientado que a HBP e a neoplasia maligna da próstata são doenças diferentes e esta última não é uma complicação da primeira.

As opções terapêuticas actuais para a HBP incluem vigilância, terapêuticas médicas e terapêuticas cirúrgicas. A vigilância e controlo periódico, juntamente com medidas gerais para evitar a congestão pélvica estão indicadas se a sintomatologia é ligeira e sem interferência significativa na qualidade de vida. Nos doentes com mau estado geral e que entram em retenção urinária, a algaliação embora esteja associada a algumas complicações, é ainda uma solução de último recurso.

A terapêutica medicamentosa inclui várias opções. A fitoterapia consiste na terapêutica com extractos vegetais e pode ser útil em doentes com sintomas ligeiros ou moderados, com a vantagem de praticamente não ter efeitos laterais importantes; o extracto mais frequentemente usado é o da Serenoa repens.

Os bloqueadores dos receptores α1-adrenégicos, que incluem a prazosina, alfuzosina, terazosina, doxazosina e tamsulosina (este especifico dos receptores α1A-adrenégicos), relaxam a musculatura do estroma prostático, colo da bexiga e uretra proximal, sendo os mais rápidos na diminuição dos sintomas.

Os inibidores da 5α-redutase, actualmente representados pelo dutasteride e finasteride (este actuando apenas na isoforma tipo II), bloqueiam a transformação na próstata da hormona masculina, testosterona, na sua forma activa, dihidrotestosterona. Diminuem parcialmente o volume deste órgão e os sintomas urinários embora demorem algumas semanas a actuar e só sejam eficazes nas próstatas aumentadas; são os únicos que comprovadamente reduzem o risco de retenção urinária e de necessidade de cirurgia.

Recentemente tem-se vindo a estudar a utilização de medicamentos já utilizados noutras patologias, no tratamento da HBP. É o caso dos medicamento anti-muscarínicos, geralmente utilizados nos casos de bexiga hiperactiva e dos inibidores da fosfodiesterase tipo 5, utilizados habitualmente na disfunção eréctil, que aparentam ter algumas vantagens no tratamento dos LUTS.

A terapêutica cirúrgica actual inclui a Ressecção Transuretral da Próstata (RTUP) e a Cirurgia Aberta; a primeira é uma cirurgia endoscópica utilizada habitualmente quando a próstata é pouco volumosa (menor que 60 cc) e a segunda é uma cirurgia por via aberta, utilizada quando a próstata é mais volumosa. Esta pode ser realizada através da bexiga (Prostatectomia Trans-vesical) ou sem abrir a bexiga (Prostatectomia Retro-púbica). O objectivo destas cirurgias é a remoção do tecido hipertrofiado e obstrutivo, mantendo-se a próstata periférica íntegra. De notar que a cirurgia não confere qualquer protecção em relação às neoplasias malignas da próstata já que é na zona periférica que estas aparecem mais frequentemente.

A RTU-P (por vezes designada Prostatectomia trans-uretral) pode ser realizada utilizando diferentes ansas que utilizam a corrente eléctrica ou diferentes tipos de laseres (sendo actualmente os mais utilizados o Holmium e o KTP (laser verde)). Estas técnicas apresentam algumas diferenças de eficácia, efeitos laterais e possibilidade de recolha de material para exame anatomo-patológico que não são ainda consensuais na comunidade urológica.

Os efeitos laterais mais frequentes das técnicas cirúrgicas são a ejaculação retrógada (o sémen não se exterioriza com a relação sexual) e alguma hemorragia após a cirurgia. Outras mais raras são a estenose da uretra e colo vesical, a incontinência urinária, a disfunção eréctil, criação de fístula urinária e a síndrome de RTUP que corresponde a uma alteração grave da concentração do sódio no sangue.

Publicado em Janeiro 2010