Informação ao Público

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Disfunção Sexual Masculina

– Distúrbios da Ejaculação, Orgasmo e Líbido

Rui Alexandrino Barros Simeão Versos – Assistente Hospitalar – Hospital Santo António


Para que a experiência sexual masculina no seu todo seja satisfatória é fundamental que um conjunto de factores e fenómenos estejam presentes no momento próprio. Assim, a existência de desejo sexual/ líbido, a erecção, a ejaculação e o orgasmo são os pontos sensíveis desta sequência de sensações, pelo que a disfunção de qualquer deles se fará sentir ao nível da esfera sexual.

O desejo sexual, ou líbido, corresponde à vontade que um tem de encetar actividade sexual, baseada em fantasias ou na presença de verdadeiros estímulos eróticos. Depende portanto de estruturas e regiões cerebrais onde a percepção e integração dos impulsos é cruzada com a informação existente na memória, sendo que as experiências passadas e a aprendizagem efectuada têm grande relevância na prosecussão da sequência de sensações sexuais. Também, estas estruturas sexuais estão dependentes da presença de factores hormonais como os androgénios (Testosterona) ou da ausência de outros como os estrogénios e a Prolactina.

O Desejo Sexual Hipoactivo corresponde à deficiência ou ausência, com carácter permanente ou recorrente, de fantasias sexuais ou vontade para se empenhar em actividades sexuais. Nas suas causas estão doenças neurológicas centrais (traumatismos cerebrais, Acidentes Vasculares Cerebrais, Epilepsia, doença de Parkinson, etc.), doenças endócrinas (alterações testiculares ou da hipófise), doenças crónicas debilitantes (insuficiência renal crónica, insuficiência cardíaca, doenças oncológicas, etc.), tóxicos ambientais, uso crónico de drogas e alcoól, e alguns medicamentos (antidepressivos, ansiolíticos, etc.).

O Desejo Sexual Hiperactivo corresponde ao contrário do anteriormente descrito. Na sua origem estão também doenças neurológicas centrais, cirurgia encefálica e alguns medicamentos (agonistas dopaminérgicos, bloqueadores dos receptores alfa 1, etc.).

A ejaculação corresponde à emissão de esperma para o exterior das vias seminais e através do pénis, podendo esta existir sem erecção e sem orgasmo. Para que ocorra é necessária a integridade de vários processos neurofisiológicos integrados. As causas da sua alteração podem ser congénitas ou adquiridas (neurológicas, cirúrgicas, farmacológicas, psicogénicas). Subdividem-se as disfunções ejaculatórias nas de ejaculado ausente ou de baixo volume (anejaculação, obstrucção das vias ejaculatórias e ejaculação retrógrada) e nas de ejaculado presente (ejaculação prematura, retardade e dolorosa).

A anejaculação resulta habitualmente de lesões com afectação ao nível do controle do Sistema Nervoso Simpático na fase de emissão (Esclerose múltipla, Mielite transversa, Diabetes mellitus, traumatismos vertebro-medulares, alteração dos níveis de testosterona, cirurgia pélvica e retroperitoneal). O tratamento é farmacológico com agonistas dos receptores alfa. A obstrução das vias ejaculatórias pode decorrer de doenças congénitas (vestígios dos canais de Muller, fibrose quística) ou adquiridas (litíase, infecção, cirurgia). A ejaculação retrógrada tem etiologia e tratamento semelhantes à anejaculação. A sua incidência está agravada em casos de cirurgia do colo vesical e próstata.

A ejaculação prematura, que apresenta prevalência elevada na população masculina (mais de 30%), está definida como a sempre presente ou recorrente ejaculação com o mínimo de estimulação sexual, antes ou pouco tempo depois da penetração e sem que o homem o deseje. A isto associa-se um tempo de relação intra vaginal de cerca de 1-2 minutos. Para o tratamento desta situação têm-se utilizado técnicas comportamentais (desconcentração durante a relação, alteração de posição, parar a relação, masturbação antes da relação, etc.) com taxas de sucesso de cerca de 40%. O tratamento farmacológico aproveita o efeito secundário de aumento do tempo de latência ejaculatório que alguns fármacos apresentam, nomeadamente os inibidores selectivos da recaptação da serotonina. Recentemente surgiu no mercado uma alternativa medicamentosa de utilização específica neste distúrbio. O tratamento cirúrgico reserva-se para a desensibilização do pénis através da neurotomia selectiva dos nervos dorsais do pénis com resultados satisfatórios.

A ejaculação retardada corresponde à dificuldade ou incapacidade para ejacular dentro da vagina durante a relação sexual, sendo no entanto possível por outras práticas. Aparentemente estão causas psicogénicas na base deste problema, no entanto algumas causas orgânicas estão identificadas, nomeadamente algumas doenças neurológicas e a iatrogenia medicamentosa (ansioliticos, antidepressivos, etc.). Também o consumo de alcoól e de drogas recreativas podem estar na origem deste distúrbio. O tratamento é medicamentoso (agonistas dos receptores alfa) ou por electrovibração.

A ejaculação dolorosa apresenta-se como uma sensação dolorosa que surge durante ou após a ejaculação e que pode persistir durante dias. Parece ser devida a espasmos musculares perineais e das vias seminais. O uso de alguns antidepressivos pode estar associado a este fenómeno.

Embora o orgasmo seja um fenómeno sensorial simultâneo da ejaculação, a sua existência ou inexistência não dependem desta última. Esta sensação de prazer e de libertação de tensão é um momento psico-fisiológico complexo, que ultrapassa muito a reacção genital e para o qual não existe uma experiência tipo, pois a sua variabilidade interpessoal é a norma. Como as alterações da qualidade do orgasmo são difíceis de avaliar e valorizar, falamos de anorgasmia, ou seja de inexistência de orgasmo para nos referirmos à disfunção orgásmica. Como causas desta temos lesões dos sistemas nervosos Periférico e Central (medular ou cerebral), o uso de alguns antidepressivos e de alguns alfa-boqueantes, cirurgias pélvicas, radioterapia da próstata, etc.

Publicado em Janeiro 2010