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Cancro da Próstata

António Augusto J. Patrício – Assistente Hospitalar – Hospital Infante Dom Pedro – Aveiro


Introdução

Parte integrante do aparelho uro-genitário masculino, a próstata, habitualmente do tamanho de uma castanha, situa-se por baixo da bexiga e à frente do recto. Este órgão é responsável pela secreção de substâncias nutrientes e fluidificadoras do sémen, assim como pela sua emissão através da ejaculação. Situa-se na confluência das vias genitais e urinária, atravessada pela uretra.

Este órgão é a sede de 3 patologias principais: o cancro da próstata, o adenoma da próstata (hiperplasia benigna da próstata) e a infecção da mesma (prostatite). O cancro da próstata é na esmagadora maioria dos casos um adenocarcinoma, ou seja, um cancro de origem glandular e muitas vezes influenciado pelas hormonas esteróides.
 

Epidemiologia

O cancro da próstata representa a 2ª causa de morte por cancro no homem, atrás do cancro do pulmão, sendo porem o cancro mais frequente no homem de mais de 50 anos. Em Portugal estima-se que tenha uma incidência de 82 casos por 100 000 habitantes e uma mortalidade de 33 por 100.000 habitantes. Representa cerca de 3,5% de todas as mortes e mais de 10% das mortes por cancro.
 

Factores de risco:

– Idade.

– Factores familiares: risco 2 a 5 vezes superior nos homens com um familiar em 1º grau atingido pela doença.

– Raça negra.

– Alimentação: alguns estudos apontaram o dedo à ingestão excessiva de gorduras animais assim como aos lacticínios.

– Outros factores tais como a obesidade, o sedentarismo, o tabagismo, as doenças sexualmente transmissíveis, a hiperplasia prostática ou a vasectomia carecem de estudos comprovativos rigorosos.
 

Diagnóstico

Toque rectal: a palpação da próstata através do recto permite verificar o tamanho a consistência do órgão assim como a presença de nódulos, no entanto não permite a detecção de alguns tumores mais pequenos.

PSA (Antigénio Específico da Próstata) : Esta proteína mensurável numa análise sanguínea é produzida pela próstata (indispensável na composição do ejaculado) e encontra-se elevada em caso de doença prostática. Podem verificar-se aumentos significativos e repentinos nos valores de referência na presença de cancro da próstata mas também em situações de inflamação ou infecção. A hiperplasia benigna da próstata também pode estar associada a um aumento sérico do PSA. Está determinado um valor de 4ng/mL como valor de referência, porem, este valor será apenas indicativo do grau de suspeição de cancro: nem sempre uma elevação do PSA significa a presença de cancro da próstata e, em revés, um PSA inferior a 4ng/mL nem sempre poderá excluir um tumor clinicamente significativo. O doseamento do PSA é de igual modo largamente utilizado para monitorizar a evolução de um cancro prostático.

Ecografia transrectal: é possível através dos ultrassons obter uma imagem da próstata assim como detectar alguns tumores. No entanto, devido à sua baixa especificidade e sensibilidade, esta técnica deverá sempre ser entendida apenas como um complemento diagnóstico da doença.

Biópsia prostática: única técnica diagnóstica capaz de confirmar o diagnóstico. Quase exclusivamente guiadas por ecografia, são efectuadas várias punções representativas do órgão, ou dirigidas a um nódulo visível na ecografia. Este exame só deve ser reservado aos homens apresentando alterações do PSA associado a um toque ou uma ecografia sugestivos de doença, já que não é desprovido de efeitos secundários não negligenciáveis como hematúria, rectorragias, hematospermia ou até urosépsis.

PCA3 : gene detectado a partir de uma amostra de urina, no entanto de uso limitado devido ao seu preço elevado face à sensibilidade diagnóstica demonstrada.
 

Sintomas do cancro da próstata

Na maioria dos casos, numa fase precoce o cancro da próstata não apresenta qualquer sintoma. O diagnóstico sintomático é também só por si impossível dado o cancro da próstata apresentar sintomas do tracto genito-urinário inferior comuns a outras patologias mais frequentes tais como a hiperplasia benigna da próstata. Estes sintomas podem ser a dificuldade em urinar (disúria), a necessidade de urinar frequentemente durante a noite (noctúria), micções dolorosas, a urgência miccional, desconforto ou dor pélvicas, mas também disfunção eréctil ou ejaculação dolorosa.
 

Prevenção do cancro da próstata

Permanecem muitas dúvidas em relação ao aspecto preventivo. A combinação do PSA e do toque rectal em homens assintomáticos permite o diagnóstico e o tratamento precoces, recomendando-se esta análise a partir dos 50 anos nos homens sem factores de risco estabelecidos.

Um estudo demonstrou o efeito preventivo da Finasterida (fármaco amplamente usado para o tratamento da hiperplasia benigna da próstata), no entanto os resultados permanecem controversos.

Alimentação: permanecem muitas incertezas após vários estudos realizados para avaliar o impacto do consumo de licopenos (tomate), isoflavonas (soja), aliáceas (alho, cebola,…), peixes gordos, Selénio, antioxidantes (vitamina E).
 

Tratamento do cancro da próstata

Algumas particularidades do cancro da próstata, tais como a hormono-dependência ou o carácter lento em termos de evolução, podem condicionar a melhor abordagem terapêutica, sendo por vezes várias as opções válidas para um mesmo caso.

Vigilância clínica: nalguns casos em que o tumor se encontra confinado ao órgão, assintomático, pode representar uma opção válida, dado que em muitos doentes idosos o tumor nunca atingirá alguma relevância clínica. Poupa-se assim o doente à administração de tratamentos com efeitos secundários marcados (disfunção eréctil, incontinência urinária…)

Cirurgia: a prostatectomia radical permanece o “gold standard” do tratamento do cancro da próstata localizado, podendo ser realizada por cirurgia aberta ou por via laparoscópica. Está porem associada a uma disfunção eréctil temporária ou permanente, anejaculação e, mais raramente, a incontinência urinária. Nos casos de doença avançada pode recorrer-se à orquidectomia, associada ou não a uma ressecção trans-uretral da próstata.

Radioterapia externa: radiação externa da próstata com raios Gama. Apresenta efeitos secundários sobreponíveis aos da prostatectomia radical mas de aparecimento gradual. Pode ainda estar associada a intolerância intestinal marcada. Representa também uma opção válida para os doentes com fracas condições operatórias.

Braquiterapia: técnica mais recente de radioterapia, consiste em implantar “sementes” radioactivas directamente no órgão sob o controle ecográfico.

Outras técnicas de tratamento localizado tais como a criocirurgia ou o HIFU são apenas reservadas a casos selecionados.

Terapêutica hormonal: a deprivação androgénica, baseada na dependência do tumor na testosterona endógena, trava o seu crescimento.

Quimioterapia: reservada aos estadios avançados.
 

Prognóstico

Responsável por 9% das mortes por cancro no homem, com o envelhecimento da população, o cancro da próstata irá representar a realidade de quase 10% da população masculina. Se o diagnóstico precoce da doença ainda apresenta algumas dificuldades, a confirmação do mesmo por biópsia representa um novo desafio. A melhor opção terapêutica deverá sempre adequar o controlo da doença às expectativas do doente.

A sobrevivência só poderá ser determinada com um correcto estadiamento. Comparativamente a outros cancros, o prognóstico é relativamente favorável, sendo que será a causa de morte de 1/3 dos homens com o diagnóstico estabelecido e com uma evolução de cerca de 10 anos.

Publicado em Abril 2010